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Natal Transmontano: a preparação dos Apancada

LUISA APANCADA Natal Transmontano

Estávamos ainda a meio de novembro quando no Vale do Cão Danado os Apancada e os vizinhos já faziam contas à vida e aos lugares à mesa da sala de jantar. Estava para chegar o desejado natal transmontano. Ou mais ou menos natal.

Este ano, devido à “porcaria do bitcho dos da Ásia” – palavras de António Zé Apancada, o pai, as contas eram boas de fazer: fica cada um na sua casa e assim será até mandarem a Gorete enfermeira, que trabalha no Posto Médico, vir dar as injeções à junta de freguesia.

Claro que a ideia não agradava ao avô Apancada, sempre se recusou a usar máscara porque “não é carnaval” e “estive no ultramar, acham que isto é alguma coisa que eu não aguente?”. O convívio com o avô Constâncio Apancada era sempre extremamente fácil e agradável, porque após cinco minutos de conversa, toda a gente acenava a cabeça afirmativamente para lhe dar razão – já só queriam que ele acabasse a história, onde era sempre o salvador.

Entretanto, abriu-se um estado de guerra na freguesia porque o merceeiro tinha ficado de trazer cinco quilos de bacalhau para cada freguesa, mas uma rutura no stock fez com que só pudesse trazer três – e, está claro, ouviram-se coisas como “Isto não devia ser assim, porque quem fez a encomenda primeiro devia receber tudo”. A coisa ficou tão séria que até durante a missa houve falatório. A mãe, São, pouco se importou saber do assunto – foi diretamente à vila e comprou logo dez quilos. Luísa, ao vê-la chegar com tamanha sacada de bacalhau, disse-lhe logo para o esconder, não fosse o avô Sertório ir lá a casa, ver aquela maravilha e querer ir leiloar para a porta da igreja. Segundo ele, “para gitcho, gitcho e meio.”

Por último, a tia Henriqueta Apancada anda muito transtornada com a filha da Alzira, que voltou de Lisboa para a terra, depois de 15 anos na capital. Isto porque Carla, a filha de Alzira, trouxe a novidade de que não se deve usar musgo nos presépios. A história contada pela tia Henriqueta, depois de dizer quando a vê ao longe a passar “ó, lá vai a moderna”, com os olhos semicerrados, é a seguinte: “Aquela sabichona diz que agora o musgo é protegido lá pelos do ambiente e da pesca e não se pode tirar do monte porque depois diz que não crescem as árvores”.
A história não era bem assim, mas a tia Henriqueta sabia como dar a volta a seu favor. Voltas, essa coisa que ela gostava de dar pela aldeia a espalhar as boas novas, especialmente com os olhos semicerrados.


*esta história é pura ficção transmontana. Vale do Cão Danado não existe sequer. Nem os Apancada, embora existam muitos apancados.

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