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As histórias de Luísa Apancada – Capitulo 1: Sertório

As Histórias de Luísa Apancada

Os Apancada – termo sinónimo de maluca, tola, louca – já têm algumas gerações na turbulenta terra de Vale do Cão Danado.

Acrescento que as histórias dos Apancada podem chocar os mais sensíveis em determinados assuntos. As histórias são puramente ficcionais, embora inspiradas em personagens transmontanas. Algumas expressões e palavras, por respeitarem o acordo transmontano, podem não ser entendidas. Esta primeira história é de leitura obrigatória para quem quiser acompanhar esta novela: apresento personagens, a freguesia e outros pormenores.

Atualmente, para além da meda de primos, tios, cunhadas e cunhados, segundos primos e acessórios, os Apancada são compostos por:

  • Luísa Apancada – a filha;
  • A mãe Conceição “São” Apancada (herdou do marido, pois claro está);
  • António Zé Apancada, o pai;
  • O avô que há de morrer, Constâncio Apancada;
  • O outro avô – Sertório Dinis, pai da mãe;
  • A avó Jacinta Dinis (outra herdeira de apelido do seu macho);
  • A avó Natércia Apancada, que já tem vestígios de alzheimer, coitada.
  • Ah, falta a tia – a Henriqueta Apancada.

    Muitas outras figuras de Cão Danado hão de cruzar-se nas histórias, nomeadamente os irmãos de Luísa, os primos e os restantes tios de ambas as partes. Também há um cão relevante para a história – o Xanana, uma gata – “Linda bichaninha” (é só assim que lhe chamam) que é mãe de quase toda a gatice da terra, e um galo de estimação que o avô Sertório decidiu não meter na panela – o Duarte Pio.

    Apresentadas as personagens principais, resta-me dizer que a nossa história começa pela altura da Páscoa, no clássico e muito católico domingo de ramos. Vale do Cão Danado tem cerca de 800 habitantes – nas eleições, milagrosamente, são mais de 1000 eleitores, na altura da Páscoa são quase 1200 católicos a ir buscar a hóstia e no verão são outros tantos de voiture blanche. O dia da Freguesia é a 26 de julho, que significa: feira de gado, torneio do fito, procissão de velas, noite pimba e arraial.

    No volvido ano, Sertório ainda se manteve sóbrio a tempo de conseguir agarrar a medalha que ganhou à conta do belo pelo da sua vaca, na feira de gado. Depois disso, caiu redondo numa valeta e por lá ficou até lhe dar a fome. Este ano nada iria ser diferente. Aliás, tudo o que cheirava a estranho e incomum tinha dificuldade em passar pelas portas do adro sem o habitual falatório do povo. Portanto, se Sertório não andava bêbado, algo estava errado – e pela voz do povo “deve andar doente, deve ser do fígado. Deve ser maligno”. E por isso, para não causar tamanha estranheza, o avô andava sempre com a mesma.

    Voltando ao domingo de ramos onde a nossa história está, preparava-se o almoço em lá em casa. A mãe andava (evidentemente) extremamente nervosa. As restantes tias ajudavam à pilha de nervos, porque todas achavam que o arroz e as batatas não podiam ser cozinhados de outra forma naquele dia senão no forno a lenha, como era tradição. São, para não as ouvir mais, acendeu o forno e lá meteu o arroz e tudo o resto. Nesse ano, tinham comprado um forno elétrico lá para casa, era lá que a mãe planeava cozinhar. Ousou ela pensar nessa terrível coisa que é gastar luz. São era a mais nova das irmãs e a menos comprometida com o Vaticano da freguesia ou com o noticiário da vizinhança. A Dona Prazeres, por exemplo, gostava imenso de ser a primeira a revelar as novidades do dia. Passava horas enfiada na mercearia de cima (não tem outro nome, também podem dizer que foram à Cândida da Fruta).

    Sertório já vinha da missa bem atestado. Comprou cinco litros no leilão à porta da igreja e para perceber se era mesmo bom, bebeu quase um. Parou na fonte, no caminho para casa da filha, e sentou-se a descansar à sombra.

    “Atão, Ti Sertório, já não arrasta as botas?”
    “Ó Carlos Filipe, andas por cá agora? Já num te quiseram mais na França?”
    “Vim à Páscoa, já nem vim cá no Natal…”
    “Vieste mais foi buscar batatas e cebolas para levar para lá, a tua mãe ainda tem lá baixo muitas”
    “Elas agora são velhas, tem de ir ajudá-la a semear agora em maio, Ó Ti Sertório, mas não pode ir com o garrafão”
    “Se não for eu com o garrafão, vai o garrafão comigo”
    “Até logo, boa páscoa, corra tudo bem”
    “Adeus”

    Sertório levantou-se mas com o calor que estava e com a égua que carregava, caiu e bateu com a cabeça no chão e ali ficou inconsciente. Levou oito pontos, esteve a soro três dias (o corpo viu outro líquido para além de vinho), o médico voltou a dizer-lhe que só podia beber um copo por dia. E ele assim fez: bebeu só um de cada vez nos dias seguintes.

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